A negativa de imputação de crime de racismo como manifestação do racismo institucional no Sistema de Justiça Criminal

Autores

DOI:

https://doi.org/10.18316/redes.v13i3.10760

Palavras-chave:

Racismo Institucional, Crime de racismo, Crime de injúria racial, Sistema de Justiça Criminal.

Resumo

O artigo se propõe a analisar, por meio de dados apresentados pelo Ministério Público Estadual nos últimos cinco anos (2017-2021), o número de denúncias oferecidas por crimes de racismo e por crime de injúria racial no período, sem desprezar a dificuldade de identificação desses dados no sistema de pesquisa do órgão acusador. É problematizada a preferência pela classificação dos crimes raciais como injúria racial em detrimento de sua designação como racismo, bem como os motivos pelos quais isso ocorre no Sistema de Justiça Criminal. É ainda escopo do presente artigo a identificação do racismo institucional no Sistema de Justiça e a proposição de encaminhamentos para sua erradicação. Pelo método materialista histórico, por meio de uma pesquisa bibliográfica e documental de base teórica calcada nos conceitos de racismo estrutural e racismo institucional, e, ainda, análise quantitativa e qualitativa de dados, com menção a um caso real para fins ilustrativos, concluiu-se que somente com a criação de varas especializadas de combate ao racismo, além de Delegacias Especializadas e núcleos de trabalho no Ministério Público Estadual, todos eles com a presença de pessoas negras nos cargos de serventuários da Justiça, magistrados, delegados e membros do Ministério Público Estadual, será possível a criação de um ambiente acolhedor e especializado para a apuração dos crimes raciais como instrumento de efetivação do texto constitucional. 

Biografia do Autor

Elisangela Leite Melo, Faculdade de Direito de Vitória

 

Mestranda em Direitos e Garantias Individuais (FDV). Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu. (Universidade de Coimbra). Especialista em Direito e Processo Penal. (FDV). Membro do Grupo de Pesquisa Invisibilidade Social e Energias Emancipatórias em Direitos Humanos (CNPq/FDV). Advogada. Procuradora Municipal. E-mail: elisangela@moreiraemelo.adv.br. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-2217-4808. Currículo: http://lattes.cnpq.br/2171279626173233

   

Elda Coelho de Azevedo Bussinguer, Faculdade de Direito de Vitória

Livre Docente pela Universidade do Rio de Janeiro (UniRio). Pós-doutora em Saúde Coletiva pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Doutora em Bioética pela Universidade de Brasília (UnB). Mestre em Direitos e Garantias Fundamentais pela Faculdade de Direito de Vitória (FDV). Coordenadora do Programa de Pós-graduação em Direito da Faculdade de Direito de Vitória (FDV). Professora Titular do Programa de Pós-graduação em Direito da FDV (Mestrado e Doutorado em Direitos e Garantias Fundamentais). Editora da Revista Direitos e Garantias Fundamentais (QUALIS A1). Coordenadora do BIOGEPE- Grupo de Estudos, Pesquisa e Extensão em Políticas Públicas, Direito à Saúde e Bioética. Membro da Rede Interamericana de Pesquisa em Direitos e Garantias Fundamentais. Colunista de A Gazeta. Presidente da Sociedade Brasileira de Bioética. Professora Associada aposentada da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4303-4211. E-mail: elda.cab@gmail.com  Currículo: http://lattes.cnpq.br/8933361259561564  

Gustavo Henrique Araújo Forde, Universidade Federal do Espírito Santo

Doutor em Educação e professor do Centro de Educação da Universidade Federal do Espírito Santo. Desenvolve estudos e pesquisas em afrodescendência e relações étnico-raciais na educação, com interesse especial nos campos da história da educação, do movimento negro e do ensino de matemática. E-mail: gustavo.forde@ufes.br. Orcid: https://orcid.org/0000-0001-6208-683X. Currículo: http://lattes.cnpq.br/3493324457073231 

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2025-12-23

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Artigos